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Fim da linha
depois de desmanchar bordados
Penélope concluiu sua obra-prima
a delicada tessitura da alma feminina
que a ninguém ofereceu
o mosaico, afinal, era só seu...
(célia musilli)
Escrito por Célia M. às 18h29
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Sobre as estações
Em anos de jornalismo e realismo trágico, tive a felicidade e o despojamento de publicar, às vezes, textos sobre as estações do ano. Reverencio a passagem de uma estação para outra, reconhecendo os ciclos que mudam o clima e a disposição das pessoas. Garimpei e reciclei, entre meus textos publicados, um sobre a primavera, outro sobre o outono. Deixo-os aqui, num dia em que chove como em Macondo , a cidade fictícia de Gabriel Gárcia Márquez em Cem Anos de Solidão.
PRIMAVERA
Um cheiro de flor invade o quarteirão contrariando as previsões que declaram o fim das estações e a loucura do clima como um caso sem volta. Neste ano, em que os furacões comportam-se como mulheres atrevidas fazendo uma revolução nas águas do Atlântico, as azaléias explodem na temporada úmida como granadas, em questão de minutos. Do dia para a noite, vermelhas, brancas, semitons, lilases confirmam a primavera. As abelhas nas pencas de flor mamam “sugar”, néctar viscoso e amarelado. Depois, bêbadas de açúcar e desejo, lançam-se no vôo do acasalamento.
Os ovos fecundados na estação serão a revoada e a ferroada do verão...
Mas agora não duvidem, é primavera. Uma estação que cheira à mulher e lança perfume.

OUTONO
Porque todas as estações têm um verbo, hoje vamos outonar ou outonear, como preferem os linguistas. O verbo da estação define bem a transição entre a atividade do verão e o repouso do frio. Entre lá e cá, isso e aquilo, a natureza faz mudanças: os bichos trocam os pêlos, as aves trocam as penas e o bicho-homem sabe que a estação mudou pelo calendário.
21 de março, o Sol entra em Áries no Hemisfério Sul. É outono e como nesta data os dias e as noites têm a mesma duração de tempo, estamos vivendo o Equinócio. Nas festas pagãs, homens e mulheres comemoravam a entrada das estações no campo, para onde seguiam em ritos de amor e fertilidade. De memória curta, distraído, o homem moderno nem sabe quando começa o outono, mas se lambuza nas frutas que amadurecem na estação como prova do milagre.
Conheço um especialista em meteorologia que é um homem sábio. Antônio Rezende Corrêa calcula a inclinação do eixo da Terra em relação ao Sol e faz contas precisas para informar que a diferença de 23,27 graus é responsável pela mudança das estações. E quem tem olhos para ver que veja: as árvores vão perdendo as folhas para desespero das donas de casa, de vassoura na mão para limpar a "sujeira" do outono. Sujeira nada. As plantas economizam água, acabou a abundância do verão e é preciso consumir menos umidade derrubando as folhas que fertilizam a terra.
Na gestação do inverno, quando uma grande dormência mudar a face do Hemisfério, outro estranho milagre acontecerá no mundo das raízes. No frio, bulbos e sementes não se manifestam. Esperam a primavera para rebentar em brotos, folhas e floração. Aí sim, repetem seu infinito potencial de vida. Mas estamos no outono, uma estação que precede a quietude do frio e semanticamente corresponde ao ocaso da vida do homem que ali pelos 50, 60 anos, começa a ter os sobressaltos da velhice. E quando ressecar a pele? Diminuírem as seivas? Esfriar o ânimo? Outonais, chegaremos até a hibernação que é o nosso ponto neutro. Ocaso e vivificação fazem parte da natureza, ensina Antônio Rezende Corrêa que é um homem sábio. Ele arrisca temperaturas entre 20 e 21 graus para o outono na cidade. Mas, íntimo dos mistérios, tem o cuidado de não ser assertivo porque aprendeu que a Terra tem humor instável depois que se divorciou do homem.
Escrito por Célia M. às 16h37
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Carta para o dia que se despede
Na tarde que se desenrolava como nuvem existia cheiro de infância e pássaros assentando nas árvores. Eram só pássaros...muito longe ainda. Não havia o sentimento de nenhuma perda, estava tudo inteiro na tarde. Os automóveis jogando reflexos nos vidros, eu jogando reflexões ao vento. Era apenas a vida se desenrolando...
Passado o tempo, começam a doer as coisas não ditas e vêm as promessas de “nunca, nunca mais deixar de falar ao seu tempo as palavras que se perdem depois para sempre...”
Por isso, escrevo cartas sem endereço, elas me perturbam desde que nasceram da nostalgia da minha infância, dos trens que apitavam dolorosamente como o ruído das coisas suspensas.
Quando fomos criados assim, com as vísceras expostas, como se o coração fosse uma bandeira que precisa tremular na realidade, decerto ninguém pensou na engenhosidade de construir um ser humano que não sentisse tanto, que não se perturbasse.
Antes fossemos como os pássaros que vêm e pousam e vão embora...Este desapego de passarinho decerto é minha meta sagrada...a chave do segredo que não alcancei..
A chave do segredo estava nas alturas, num muro alto...escorreguei e para tê-la nas mãos teria que me fingir de Alice,entrar num buraco, aventurar-me ...e não me aventurei.
Por isso, sinto todas as coisas. Perdi a chave que me daria a liberdade da indiferença de viver como os simples, os pássaros ou as minhocas que roubam da terra seu sustento e são.......felizes??
Eu queria ser Alice, apenas perplexa com a visão da realidade que não passa de sonho..jogo de espelhos...não tem a menor importância... até que alguém me prove o contrário e sem dor.
Quem disse que teríamos que agir assim, sentindo? Quem decretou que os seres humanos, estes animais pensantes, precisariam ser constituídos de um tecido frágil que esgarça os sentidos e nos faz desejosos, quando poderíamos atingir a liberdade da existência e sem anestesia??
Antes que me assalte alguma resposta pronta, antes que me digam que assim nos diferenciamos do resto, passo as mãos nos seus pêlos na última hora da tarde, e deixo que a sutileza - entre meus dedos e os seus pêlos - seja a única resposta possível para esta nostalgia de flagrar mais uma vez o dia após dia.
O afago é mais forte que a palavra. Carícias desatam nós...A existência segue a noite entre os meus lençóis e as galáxias. Seus pêlos são tão macios...
(célia musilli)
Escrito por Célia M. às 11h41
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Foto da Nasa mostra o furacão Wilma na região do Caribe
Wilmaaaa!!!!
quando eu era criança adorava ver os Flintstones, com o Fred chegando de madrugada e gritando: Wilmaaa! abra a porta!
agora os habitantes do Caribe, Golfo do México e da Flórida estão gritando: Wilmaaa!! fecha a porta!!!! porque o maior furacão desta temporada atingiu ontem a categoria 5, com ventos a 280 km por hora. não é brincadeira!!! hoje, o danado está rumando para a península de Yucatãn, no México, e deve atingir a Flórida no fim de semana. pânico geral, estradas tomadas por carros de pessoas fugindo da pior tempestade da temporada. soube que, nesta quinta-feira, o furacão baixou a bola: caiu para a categoria 4, com ventos a 240 km/h. ainda assim não dá pra encarar.
Wilma é o último nome da lista de furacões para 2005, já que letras como Q, U, X e Z não são usadas para batizar as tempestades. se surgir outro furacão - o que é bem provável - os especialistas terão que usar o alfabeto grego, que começa com a letra Alfa. mas há luz no fim do túnel: a temporada de furacões tropicais, formados no Atlântico, termina em 30 de novembro. até lá...fechem a porta!!! ou melhor, abandonem tudo e peguem a estrada, carregando um terço e uma garrafa de tequila.
pensar que ainda há terremotos no Paquistão e no Japão. e tem seca na Amazônia, gente.lembrando Raulzito, eu sigo em frente, cantando: "parem o mundo que eu quero descer!!" e me benzo na tenda da Mãe Joana....eu , hein!!!rss.
Escrito por Célia M. às 11h28
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desejos impossíveis
eu gostaria de...
1 - ter a tela A Dança, de Matisse, na minha sala
2 - bater um papo com Oswald de Andrade, Tarsila e Pagu
3 - comer de novo o empadão da minha mãe
4 - ouvir Janis Joplin cantar Summertime na fila do gargarejo
5 - ver Nureiev e Margot Fonteyn dançando
6 - assistir um show de Tom Waits
7 - morar com alguém no Taiti
8 - escrever um livro de poesia e virar best-seller
9 - tomar tequila com Hemingway
10 - tomar champanhe com Humphrey Bogart
11 - ganhar um poema de Neruda
12 - voltar no tempo e conversar longamente com meu pai
13 - colecionar perfumes da L"Occitane
14 - escrever o roteiro de um filme de Fellini
15 - ver a redação da Folha parando porque chegou um E.T.
16 - morar num país sem fome e sem violência
17 - poder dormir, todos os dias, quantas horas quisesse
18 - ser fotografada por Doisneau
19 - morar em Paris na Belle Époque
20 - fazer meditação num mosteiro do Tibet
21 - viver num planeta despoluído e civilizado
22- saber que o programa do Ratinho saiu definitivamente do ar
23 - abraçar um tigre porque ele é o maior "gatão" da natureza
24 - passar uma noite no Xingu
25 - inspirar uma música de Tom Jobim
26 - ser amiga da Clarice Lispector
27 - saber tudo de Astronomia
29 - constatar que Bush morreu e reencarnou pobre no Afeganistão
30 - salvar florestas e animais da extinção
Entre todos estes desejos, tem um que eu não listei porque realizei: ser para sempre a mãe do Guga e do Fernão
Escrito por Célia M. às 22h08
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Oásis
carta sem papel
no seu selo da memória
em que porto
vou ancorar nossa história?
mar, paraíso terrestre,
miragem, um dia
eu te encontrei
na paisagem
passamos como viajantes
um átimo do tempo ali
delírios, imagens de
Gauguin no Taiti...
(célia musilli)
Escrito por Célia M. às 22h00
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O BALÉ E O SONHO
quando me perguntam qual é meu sonho secreto, respondo no ato: ser bailarina. claro que nunca serei. mas adoro jazz, sapateado, dança étnica, contemporânea e acho o clássico de tirar o fôlego. as bailarinas com seus "tutus" armados, pés delicados nas sapatilhas, são o extremo do feminino, a mulher como um ícone da fantasia.
hoje vi um trecho de O Lago dos Cisnes, dançado pela primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio, Cecília Kerche. ela e o solista Silvio Luís fizeram pas-de-deux de O Cisne Negro. as duas figuras rodopiando com uma precisão tecnológica, mas feitas de carne e osso, redimensionam a perfeição humana. o que me empolga no balé é o que fazem com os corpos, o domínio de cada músculo, o equílibrio impensável, a leveza das folhas ao vento, sustentada por pernas e pés.
Cecília Kerche dançando O Cisne é encantadora. o ondular dos ombros, os passos ligeiros em ponta, dão a impressão de estar mesmo nadando. outras vezes voa, com a graça das aves.
Silvio Luis e Cecília Kerche encerraram o Festival de Dança de Londrina neste domingo. Um grand finale com uma bailarina clássica que, aos 45 anos, tem corpo e leveza de menina. talento imensurável, deixando o público zonzo com rodopios, postura perfeita e elegância de boneca de caixinha de música. um sonho, arte extraída como ouro em anos de trabalho incansável. uma deusa da dança na plenitude de seu talento. talento tipo exportação porque Cecília já dançou nas grandes companhias do mundo...
Escrito por Célia M. às 22h08
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MEMÓRIAS DA TRIBO
    
acertei o relógio para o horário de verão, mas hoje amanheceu nublado e a chuva fina me leva a uma melancolia que não combina com os trópicos. à medida em que o tempo passa , gosto mais da luz e procuro a expansão. gosto dos girassóis que se movem para cá e para lá atrás da claridade, como se fossem gente.
os incas reverenciavam o sol como um deus. ritualizavam a vida na Terra na nascente e no poente. tinham suas razões para acreditar que a Mãe Gaya dependia da luz, e depende. hoje parece poético demais olhar o sol em bando, nossa civilização não coletiviza, individualiza, e isso não tem nada a ver com a individualidade saudável, a preservação do eu. trata-se mais de uma questão de posse, de mesquinharia, de neuras.
há tempo para tudo. tempo para as sombras e para a luz. mas a memória antropológica me instiga à vida, aos solstícios e aos equinócios quando, a cada fase da natureza, as tribos fortaleciam seu espírito. para reverenciar esta memória, deixo aqui fotografias e ícones do sol. se existe um Deus, ele deve ter este rosto quente, dourado, luminoso. para mim, o sol é um deus, as deusas são luas...
Escrito por Célia M. às 11h54
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