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Novo manifesto antropófago

 

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. (Oswald de Andrade)

 

Faço parte de uma geração que nunca viu o Brasil feliz. Quando nasci, um anjo torto veio me avisar que eu viveria nos anos de chumbo. Ouvíamos rumores sobre a morte de estudantes, trabalhadores, pais de família. Assim, cresci meio receosa da nossa capacidade cívica. Que pátria era essa que torturava, matava e escondia?

Depois, vieram os anos de lavar a roupa suja, conquistar a anistia para trazer de volta quem pensava diferente. Afinal, a demoracia é ou não é o regime da diversidade de idéias? Do respeito às diferenças? Da crença civilizada de que, na dúvida, a gente decide no voto? 

Quando finalmente, depois de décadas de sufoco, o Brasil elegeu alguém das massas - com apoio de intelectuais e esta gente toda que julgamos ser a nossa "inteligência" -, a casa vem abaixo num escândalo de corrupção que, na verdade, é nossa hóspede desde a Primeira República. Nos enganamos achando que a maldita pudesse ser exorcizada num governo popular.

 Ééé...votei no Lula, mas hoje me sinto politicamente órfã. Um anjo gauche veio me avisar que algo deu errado de novo!

Esta semana, Caetano Veloso declarou que  o "governo Lula é inoportuno". Ele tem razão. Que nos perdoe Gil e todos os seus sonhos de cultura. Mas este governo tem o dom de fazer uma caca atrás da outra. 

Agora vem dona Marisa querendo mudar a decoração do gabinete presidencial. Pelo amor de Deus, alguém dê um stop na peruagem dela. Não é hora de trocar o sofá, dona Marisa! O povo brasileiro está precisando de um divã...É hora de trocar esta mentalidade usurpadora que transforma pessoas que pareciam bem intencionadas em gentinha interesseira.

O poder corrompe mesmo. Só pode ser coisa do capeta. Precisamos de uma legião de arcanjos para refazer o Brasil, passar o país a limpo. Vamos invocar Mãe Menininha pra limpar este carma que não nos deixa andar pra  frente.Com tanta riqueza, tanto minério, tanta fertilidade, tanta água, tanta floresta vivemos pagando o mico, dando pinta de malandros ou de coitados. ..

Também não adianta só vaiar o Bush, é preciso vaiar todos os seus vassalos. Incluindo Lula e dona Marisa que, neste domingo, recebem Bush para um almoço. Precisamos deixar de fingir que somos o que não somos. Vamos falar de homem pra homem.

Agora, como disse Oswald, é tupi or not tupi...Sou a favor de cozinhar o Bush na Praça dos Três Poderes em vez de lhe dar  almoço. Comam ele, gente...Vocês se lembram do que os Caetés fizeram com o Bispo Sardinha????  Pois é....só a antropofagia nos salva.  E alguém aí quer Lula de sobremesa? É, eu sei que o menu é indigesto...rsss    



Escrito por Célia M. às 20h10
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CHUVA 

mãos em concha na goteira

a tarde úmida

inundou minha vida inteira

 

INFÂNCIA

bolo de fubá

minha avó dormia

eu degustava o chá



Escrito por Célia M. às 17h51
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UMA ENTREVISTA SILENCIOSA

No começo dos anos 90 conheci Mathilde Hulsmeyer. Uma pioneira que veio com a família para o Norte do Paraná na década de 40. Existe por aqui uma comunidade alemã concentrada numa cidadezinha chamada Rolândia. E foi lá, numa fazenda, que encontrei Dona Mathilde com a incumbência de escrever seu perfil. Cheguei num dia de calor e ficamos na varanda da casa de madeira. Dona Mathilde tinha dificuldades para se comunicar, havia adoecido e percebi que era tarde para tentar uma "entrevista". Ela, com a idade avançada, não conseguia mais responder perguntas.

Resolvi fazer o perfil assim mesmo, observando o ambiente, seus hábitos, costumes, gostos, prazeres. Sobre a mesa da cozinha havia um bolo pela metade e as velinhas  do aniversário, comemorado na véspera, com os números 8 e 7. Dona Mathilde tinha então 87 anos. A imagem me deu a primeira frase do texto. Porque as idéias vêm assim, sob a inspiração de uma cena, um gesto, qualquer coisa que comunique um significado. Observei que na varanda havia vasos com plantas e quadros na sala com pinturas de flores da região. Muitas aquarelas e telas a óleo que constatei serem obras daquela senhora impedida de articular palavras.

Enquanto eu olhava, ela se levantou, foi para dentro da casa e voltou com um livro: "Os jardins da minha vida", escrito por ... Mathilde Hulsmeyer. Naquelas páginas estava parte da sua história.  Ela que havia fugido da Alemanha no período da guerra e passado por outros países até chegar ao Brasil, tinha deixado jardins pelo caminho. Em todas as suas casas semeou, plantou, cuidou.  Os jardins eram uma forma de marcar território, dizer "estive aqui neste pedaço de mundo". E plantava hortênsias, primaveras, palmeiras, roseiras, cravos, cactos.

Através dos jardins e das impressões colhidas na casa de Dona Mathilde, fiz a "entrevista" sem que ela dissesse palavra. Na mesma semana a matéria foi publicada. A minha personagem apareceu sorridente na página, cercada pelas suas plantas e dois cachorros. 

Dias depois recebo um envelope com letra trêmula mas caprichada. Dentro uma carta de Dona Mathilde agradecendo a reportagem e me convidando para um almoço a que não pude ir. Mas correspondi à gentileza, enviando também uma carta num tempo em que as mensagens manuscritas já pareciam coisa de um passado distante. Adorei fazer aquilo. Para mim, Dona Matilde sempre será uma mulher entusiasmada pela beleza, ninguém faz jardins por acaso. E também um exemplo de como algumas mulheres vividas aproveitam seu tempo construindo coisas que as dondocas nem cogitam. Por isso tenho pena das pessoas fúteis, das mulheres que não se dedicam a nada, que passam o dia esperando...o dia seguinte, sem realização própria. Dar sentido às coisas não é problema de geração.  É uma chama que ilumina alguns espíritos, jovens, velhos, de qualquer classe social. As pessoas inúteis e entediadas deveriam uma vez na vida enfiar a mão na terra, só pra sentir que a vida pulsa muito além do limite dos seus mundinhos e muito acima dos seus umbigos.

Os jardins de Dona Mathilde Hulsmeyer, que morreu pouco depois da reportagem, se estenderam da Europa até o sertão do Brasil. Querem coisa mais bonita do que marcar sua passagem com um canteiro de rosas, insetos e minhocas? 

 



Escrito por Célia M. às 22h36
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O pai do hipertexto

 

O norte-americano Ted Nelson veio ao Brasil. É um papa das artes eletrônicas. Em 1960 criou as expressões hipertexto e hipermídia para definir a revolução "hiper" que apenas começava. Ele foi convidado para abrir o sexto Festival Internacional de Linguagem Eletrônica que segue até o dia 20, em São Paulo. Em entrevista , disse que os "tecnólogos sequestraram o conceito de hipertexto e criaram algo que não tem nada a ver com ele". Diz que a internet repete o design dos textos no papel e que há outras formas de fazer isso. "Há milhares de maneiras de colocar as coisas na tela, mas todos - Macintosh, Microsoft, Linux - copiam o formato retangular e a hierarquia do papel." A afirmação atiça minha curiosidade, fico imaginando que outra maneira haveria de trabalhar o hipertexto, extrapolando a interatividade dos links e as possibilidades de agregar imagens e sons. Nelson, que é professor do Instituto Internet da Universidade de Oxford, apresenta como nova proposta a "transliteratura" que conecta duas webpages - quando o internauta passa o mouse sobre um trecho , abre-se uma janela que leva para o original. "É um sistema de fonte aberta, onde é possível remixar e recombinar qualquer coisa, sem problemas com copyright", diz. Fico imaginando o que será isso nesta época "hiper" em tudo. Hiperacelerada, hiperativa, hipercriativa...Mentes estão sendo programadas de outro modo a partir da infância...uauuuuu... 

 

 



Escrito por Célia M. às 13h02
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sem censura

 

 

me despi

para alimentar o fogo

a última peça

é o xeque-mate do jogo

 

                                 (célia musilli)



Escrito por Célia M. às 00h04
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BANDEIRA CABOCLA

 

 

Se existe coisa que me enternece é ver o povo carregar bandeiras. Não precisa ser a do País que, por sinal, acho linda. Pode ser outra bandeira, como essa que os moleques da foto carregam com o maior orgulho: patchwork sertanejo, feito pela mãe, pela avó, por eles mesmos. Por isso tanto orgulho em carregá-la esticadinha e tanto cuidado para que não esbarre no chão. Fico pensando nas pessoas que a fizeram. Quem cortou os retalhos, separou por cores, foi para a máquina costurar quadrados e retângulos, até formar este mosaico original?

 Bandeira é coisa coletiva, integra nações, times de futebol, marca presença nos navios. Acho muito lúdico vê-las ao vento. Mensagens que se desdobram a cada olhar.

As cores e formatos das bandeiras são a cara dos povos. Não imagino o Japão sem aquela bandeira esteticamente comedida e perfeita, como são as letras japonesas, a cerimônia do chá, os pratos da culinária delicada. Não imagino o Brasil sem esta bandeira escandalosamente verde e amarela. Essa combinação que não teria nada a ver não fosse a representação vibrante do nosso povo. O Brasilé um país "descombinado", por isso tão original. É imenso, tem norte e sul bem marcados, frio e calor, riqueza e miséria. Daí essas cores berrantes da bandeira representarem bem nosso contraste meio brega, meio chique, meio alegre, meio triste, cheio de identidade.

 

Quando bati os olhos neste patchwork sertanejo, meu coração disparou. O estandarte da família sendo carregado por meninos descalços e orgulhosos da sua criação. Para onde vai esta bandeira? Para o sofá da avó? Para a prima que se casa hoje? Para a feira, como artesanato, podendo valer a refeição da família? Não sei pra onde ela vai. Importa que a vi e pensei que pedaços de pano são poemas lindamente arranjados, que a gente pega na ponta dos dedos e conduz em estado de graça. Quando falo na criatividade brasileira, na antropofagia cabocla, não me contenho e grito: Viva Oswald de Andrade! Pra mim o cara que decifrou o Brasil.  



Escrito por Célia M. às 12h33
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  as 100 primeiras mensagens a gente não esquece

Escrito por Célia M. às 23h21
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 Hehehe! Até as vacas estão lavando as mãos 

Escrito por Célia M. às 22h38
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                                                                     Entre Delleuze e seo Creyson

 

        Com os blogs fica fácil perceber quem é do barulho e quem é intimista. Eu pertenço ao segundo time, pelo menos quando estou escrevendo. Ataco de Edith Piaf,  ouço Non, Je Ne Regrette Rien às 8 da manhã, enquanto metade da população está fissurada nos programas policiais, com  aqueles locutores contando, animadíssimos, com quantas perfurações à bala o sujeito morreu na padaria.

 

             Até poderia fazer parte do alvoroço - essa turma sofre menos -, mas graça e desgraça em excesso me enchem o saco. Tenho senso de humor pra ler caras inteligentes como o Xico Sá, mas pra me interessar por blog de farofa-fá, francamente, ou bebi demais ou estou fazendo média com a cunhada chata que ri de todas as piadas e...quer me contar uma por uma.

 

 

            Com essa mania de me ligar na qualidade, fico meio desambientada neste mundo “pobrinho” e de rasa opção. Também tô querendo o quê? Meu vizinho adora som alto, daqueles que racham o escapamento do carro,  conhece os “clássicos” do caminhão de gás, curte festinha com todo mundo enchendo a cara de cerveja e comendo linguiça, e madame aqui querendo compreender Delleuze? Tá bom, ninguém precisa exagerar. Tudo que é demais é muito, já dizia minha avó. Então, Deus me livre também ser do tipo que faz cara de nojo quando alguém fala de novela. Eu já aproveito e dou minhas tacadas: "Adorei conhecer o boi Bandido, grande atuação, é o melhor ator de “América”!! Mas perder meu tempo rindo do seo Creyson ou vendo as pegadinhas do Faustão não dáááá...!!!

 

              O engraçado é que o reverso da cultura  miserável são essas linguagens herméticas que ninguém suporta porque não compreende ou, em outras palavras, não engole mesmo. Lembro-me quando um conhecido crítico paulistano resolveu dirigir um espetáculo e montou uma peça em que a melhor coisa era uma galinha ciscando...É gente, com pena, bico e tudo. A bichinha ficava cercada lá no fundo e, como estávamos num festival em São José do Rio Preto – sabem como é, cidade do interior – durante um tempão o público ficou achando que o dono do galpão, que servia de teatro, tinha prendido a galinha pra não perturbar a obra. Demorou pra ficha cair e a gente perceber que, realmente,  a galinha era o espetáculo...  Deus nos acuda de tanta obra aberta. E do apartheid dos frangos.

 

            Deixando os exageros, bom mesmo é ler texto gostoso, ouvir música que não fira os ouvidos, escrever  com um mínimo de inspiração e, se pintar a tal melancolia, deixar que as palavras conduzam o momento porque tristeza tem fim, mas breguice e chatice não. E as duas coisas pegam... Não vêem como anda o País?

Ainda prefiro um poema sensível, uma fossinha básica ao humor de mau gosto ou  aos “inteligentes” que vêm me contar o enredo do livro comprado na Islândia e sem chance de tradução. Vocês me entendem, não é???

 

            Entre a afetação e o conhecimento existe um abismo de aventuras. Entre o humor e a pura grosseria também. Já peguei carona errada com doutor da USP e no meio do caminho queria morrer só pra não saber, tintim por tintim,  o tema da tese dele. Também embarquei  em festa de república com todo mundo cantando bundalelê , bebendo cachaça e jogando truco. Odiei ver minha cara de besta nas duas ocasiões. Não devia ter saído de casa. A sorte é achar um táxi pra escapar de fininho e ficar aqui  pensando....escrevendo...pensando ...e , às vezes,  rindo sozinha. Até sentir saudades da Piaf  que é pura carícia em meus ouvidos. Música boa de cabaré...



Escrito por Célia M. às 22h29
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AUSÊNCIA

 

depois há sempre

a lembrança  do corpo

dos pés à cabeça

copo de vinho à mesa

mobília afetiva

indivisível

como são

as coisas simples

liquefeitas

promessas no poente

insatisfeitas

 

 

 

 

depois há sempre

a mesma saudade

certeza que falha

no seu próprio ciclo

líquido desejo

lágrima na noite

sina descumprida

vento do destino

o último desatino

e o fim inesperado

do encantamento...  

 

 

(célia musilli)

 

 



Escrito por Célia M. às 13h51
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Non, je ne regrette rien

Michael Vaucaire e Charles Dumont
Gravada por Edith Piaf


Non! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien...
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux !

Balayés les amours
Et tous leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro ...

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette nen ...
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi!

 

 (Para saber mais sobre Edith Piaf, visite o site http://www.bibi.piaf.com)







Escrito por Célia M. às 12h34
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a tristeza tem olhos verdes que me espreitam no fim da rua, onde se juntam os pensamentos vadios...

 



Escrito por Célia M. às 11h08
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