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Carne

Que importa se a distância se estende entre léguas e léguas...

Que importa se existe entre nós muitas montanhas?

O mesmo céu nos cobre...

E a mesma terra liga nossos pés.

No céu e na terra é a tua carne que palpita...

Em tudo sinto o teu olhar se desdobrando...

Na carícia violenta do teu beijo..

Que importa a distância, que importa a montanha?

Se és tu a extensão da carne sempre presente...

 

(vinicius de moraes)

 



Escrito por Célia M. às 17h40
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 Bocato: instrumentista de primeira grandeza

Nu jazz

Fui na maior expectativa assistir ao show do Bocato no Londrina Jazz Festival. Ele continua grande como instrumentista. Mas uniu-se a Patríca Marx pra fazer um som que estão chamando nu jazz. A intenção é temperar a música eletrônica com incursões jazzísticas. Neste caso, não rolou...Patrícia Marx não canta muito, tem aquele pique de cantora de FM de Nova York, mas sem nenhuma informação nova... aí podem chamar nu jazz ou qualquer coisa que vier à cabeça, o fato é que não há momentos ups, daqueles que tiram a gente do chão. O público fica esperando que alguma coisa aconteça, isso é ruim... Bocato comparece com seu talento de trombonista, inquestionável..mas a gente olha e pergunta: o que ele está fazendo ali, com a Patrícia e o DJ Bruno E. ??? Fica tudo meio desconectado , sem função.. pelo menos pra mim... Melhor o show que abriu a noite. Nu jazz tb, com M.Takara... juntando bateria, vibrafone e trompete. Fusion de eletrônica com outras sonoridades, reconheci a música minimalista num show urbano, cheio de repetições e do barulho do trânsito, da fábrica. Escala industrial bem feita. Pop art sonora. Foi o que valeu. E pro Bocato fica um pedido: Cara, volta pra banda Jam Suburbana.... Aí sim, eu não fico parada, aliás ninguém fica. Você é grande! Não ceda aos apelos do mercado, não curti essa garota miando a sua volta... ela atrapalha seus solos.  



Escrito por Célia M. às 02h52
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Foto rara

1949 - Miles Davis toca para Juliette Gréco, a musa da nouvelle vague. Ela concentrada nas notas que ele extraia do trompete como quem extrai lentamente o sangue das veias. Emoção "cool" garimpada nos limites da arte. O pós-guerra deu origem a coisas muito loucas. O mundo penetra na vertigem da modernidade, da qual ninguém sai ileso. Artistas caminham no fio da navalha. Experiências extremas na música, no cinema, na literatura dão origem a novos códigos. Davis transcria o jazz com o sopro da genialidade.   



Escrito por Célia M. às 21h46
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selvagem

 

dorme a onça suçuarana

o seu sono de mulher

que ela reparte na cama

com ele tudo é instinto

febre, fogo de absinto

a força do sexo

chama

 

(célia musilli)



Escrito por Célia M. às 00h35
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 E Zé Dirceu perde o mandato por 293 a 192....

Escrito por Célia M. às 00h16
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 Zé Dirceu levando uma surra pra deixar de ser moleque....rss

 

Viva a República das bengalas!

 

Depois que o paranaense Yves Hublet acertou o passo do Zé Dirceu com bengaladas, é capaz de acabarem por aí os estoques do instrumento de apoio  que sempre ajudou os velhinhos a fazer justiça com as próprias maõs. Tem muita cena de filme em que os velhos irados resolvem suas diferenças  dando um show...de bengala. Yves Hublet, digam o que disserem, pode ter mudado o desfecho da cassação de Zé Dirceu. Lembrou à mídia que a nação continua indignada, quando já se ouviam rumores do tipo "Sabe, Zé Dirceu está se saindo bem...!" Etc, etc.

Se Dirceu não for cassado em Brasília é capaz de passar a ser caçado pelos velhotes de bengala. A cada aparição pública...um croque. E o que tem de político precisando apanhar , não está no gibi.

Sou favorável à livre expressão da Terceira Idade. Com velhinhas tirando os chinelos e dando de sola nos políticos canalhas, juntamente com os velhinhos descendo o sarrafo. Em três tempos eles põem ordem na República da Mãe Joana. Tão pensando o que esses senadores e deputados? Pra mim muitos deles estão precisando de uma sova, como diria minha sábia avó. Umas palmadas na hora certa têm o poder de acertar o caráter e o passo dos indivíduos pela vida afora. Há quem discorde. Mas que fazia um bom tempo que Zé Dirceu não apanhava pra valer, ah! isso fazia. Deu no que deu, este moleque mimado do PT!  


 



Escrito por Célia M. às 12h12
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 Homens são como gatos, se você demonstrar que quer "pegá-                                                              los", eles ficam em cima do muro...

 

 

Tiradas felinas

- Homens são como gatos, adoram peixe desde que a gente limpe as escamas para eles.

- Homens são como gatos, só fazem xixi no lugar certo depois que a "dona" ensina muito. Com vantagem para os gatos que ...acertam a mira.

- Homens são como gatos, quando brigam ficam insanos. Só param se a gente jogar um balde d´agua ou chamar o vizinho pra ajudar a apartar.

- Homens são como gatos, quando menos se espera chegam por trás e colam o focinho gelado no  pescoço da gente. rsss. miauuuu



Escrito por Célia M. às 04h22
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Cobra criada

Meus filhos tinham 7 anos quando voltaram da escola com uma tarefa: fazer uma pesquisa sobre as serpentes. Educação moderna é assim, eles mal saem das fraldas e começam a entender de "ofídios". A escolha das espécies tinha sido feita por sorteio. Fernão pesquisaria a cobra coral, brasileira e muito conhecida. Guga pesquisaria a cobra...colarinho. E aí começou a aventura, porque não encontramos nenhuma pista sobre a danada. Em apenas um dia, Fernão estava com tudo pronto. Caprichoso e bom desenhista, ilustrou o trabalho com serpentes lindas e contou tintim por tintim como a coral vivia, como se comportava, do que se alimentava, qual era seu habitat. 

Chegou a vez do Guga. Procuramos em livros, revistas e na internet. Nada de achar alguma coisa sobre a "cobra colarinho".  O Guga ficou envenenado. Queria porque queria fazer o trabalho, não se conformava em voltar pra escola sem nada. Então copiou alguns textos, misturando informações, e passou mais de uma hora concentrado numa folha de papel: lápis de cor, caneta e régua na mão. Escreveu, escreveu, desenhou , pintou e veio me mostrar a pesquisa num quadro muito "didático":

 

COBRA COLARINHO

Grupo: Ofídio

Família: Elopídeos

 

Características:

- Corpo cheio de escamas pretas e amarelas

- Não enxerga muito bem, mas sente o cheiro das vítimas

- É carnívora

- Tem língua dividida em duas partes, chamada bífida, porque ela adora bife

- Injeta veneno nas vítimas com os dentes e depois sai rastejando toda contente

- É meio devagar mas sobe em árvores

- Chega a 1 metro de comprimento quando cresce

Habitat: a floresta onde faz uma toca pra guardar seus filhotes. 

E acrescentou:

Mas é uma cobra muita rara que quase ninguém conhece, por isso não tem nada sobre  ela na internet.

Eu sabia que ele tinha inventado aquilo, mas sua criatividade merecia 10. Conversei com a professora sobre as "origens duvidosas" da serpente. Ela riu, falou com o Guga sobre a importância de separar a imaginação da realidade, mas deu os parabéns para ele que, literalmente, tinha criado uma cobra...  



Escrito por Célia M. às 00h03
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O blues do Mali profundo

Ele não nasceu no Delta do Mississipi, nasceu numa aldeia africana chamada Nianfunké, na região do rio Tiger, em Mali. Ali Farka Touré tem 66 anos, 11 filhos, talento de guitarrista comparado ao de John Lee Hooker. Mas ele não cultiva só a música, cultiva a terra, usa o dinheiro que ganha com os discos para comprar máquinas agrícolas e não faz questão de se apresentar nos melhores palcos do mundo, embora seja convidado.  Ele brilha fazendo o melhor afro-blues da Terra, guitarra temperada com percussão africana. Seu canto, muitas vezes entoado na língua nativa, traz o lamento do Mali, ainda mais profundo do que o do Sul dos EUA por uma razão: é canto matriz, de raiz genuína. 

Um dia ganhei um CD de Ali Farka Touré do amigo Ranulfo Pedreiro, jornalista como eu  e grande conhecedor de música. O disco se chama "Talking Timbuktu" - isso mesmo, vamos falar em africano - e foi produzido em 1994 por Ry Cooder, um dos ouvidos mais sensíveis da América. O álbum nunca mais deixou de ser "meu disco de cabeceira". Se tivesse que escolher apenas  três CDs para levar a  Marte - sem chance de ouvir mais nada por lá - , um deles seria, sem dúvida, "Talking Timbuktu". Mas Ali produziu muito mais. Seu primeiro álbum foi gravado em 1986 e leva seu nome "Ali Farka Touré". Não precisava mesmo mais nada. 

Nos anos 90, seu brilho ganhou intensidade no Ocidente. Os orixás o abençoaram quando gravou "Nianfuké" em 1999, considerado pelos críticos o "melhor disco de World Music dos anos 90." World Music? Pra mim é música africana pra ser ouvida nas estrelas. Seu último disco foi gravado este ano, chama-se "In the Hearth of the Moon".

Touré enche meu coração de lamentos, enche meu coração de blues, enche meu coração da misteriosa profundidade da África que, para mim, é um continente de primeira grandeza. Mãe África da paisagem soberba - hoje devastada -   dos grandes animais quase extintos, de um povo único, do talento solar que tempera a música de Ali Farka Touré, que só podia ter nascido em Nianfunké, na região do Saara, próximo ao rio Tiger. Ele traz a estrela que brilha em Tóquio, em Paris, no Mississipi. Pra mim, sua música é benção. Suíngue e originalidade na veia aberta do afro-blues.

 

(Texto dedicado a Fernando Blues Borghi, amigo blogueiro e blueseiro que, dia desses, viu aqui um comentário sobre Ali Farka Touré e ficou curiosíssimo. Taí, Fernando, esse é "o cara".)

 

E como blues tem tudo a ver com poesia, deixo dois textos:

 

"Um beijo

que tivesse um blues

Isto é

imitasse feliz a delicadeza, a sua,

assim como um tropeço

que mergulha surdamente

no reino expresso do prazer".

(Ana Cristina César)

 

 

"Senti a lágrima rolar

sobre meu rosto nu

deslize de prazer

entre meu corpo e o blues..."

 

(célia musilli)



Escrito por Célia M. às 13h57
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